25 de junho de 2026

Você não sabe o que é marketing.

Você não sabe o que é marketing.

E quem te vendeu a definição provavelmente também não sabia.

Virou moda dizer que “marketing sem resultado não é marketing” — frase de efeito contra quem trata marketing como puro branding. A provocação é boa. O problema é que quem a repete quase nunca diz como o resultado se faz. Troca uma fé por outra: o time da marca adora o branding e despreza a conta; o time do número adora o CAC e despreza tudo que não cabe na planilha.

Os dois estão errados — e pelo mesmo motivo. Confundem o setor de marketing com a disciplina. Brigam pela posse de uma fatia, “marketing é comunicação”, “não, marketing é vendas”, como se a questão fosse qual pedaço do departamento merece o nome. É disputa de território numa sala que nem é a sala principal.

Quando Drucker escreveu, em 1954, que toda empresa tem apenas duas funções — marketing e inovação — não falava de departamento. Dizia que marketing é a lógica pela qual o negócio existe: criar e manter um cliente. Levitt levou adiante na Marketing Myopia. Não é setor. É orientação da empresa inteira.

Eu venho do marketing puro. E é justamente por isso que afirmo: o maior erro da minha própria tribo foi querer ser executora de tudo — dona da campanha, do post, do evento, da peça. Esse instinto de pôr a mão em cada entrega rebaixou o marketing a um fornecedor interno de material. O papel dele é outro, e é maior: ser o guardião da coerência.

Antes de qualquer máquina de receita, existe uma pergunta que a maioria das empresas pula: quem é o cliente — e é o cliente certo? Certo no duplo sentido. Coerente com o que a empresa sabe entregar, e viável: que paga o que vale, permanece, e existe em quantidade que justifica a operação. Responder isso não é tarefa de uma área. Reverbera no preço, na praça, no produto e nos canais de aquisição. Os 4 P’s — que são de McCarthy, não de Kotler, e estão longe de ser o teto da disciplina — só prestam quando lidos assim: não como checklist tático, mas como a grade onde a coerência se prova ou se desmonta. Preço incoerente com o posicionamento, canal incoerente com o cliente, produto incoerente com a promessa: cada desalinho desses é um vazamento antes do primeiro lead entrar no funil.

É essa coerência, espalhada por todos os pontos de contato com o mercado, que cria o ambiente onde a receita pode crescer. E é por isso que o marketing precisa estar transversalizado na operação — não como quem executa cada coisa, mas como quem garante que todas as coisas digam a mesma verdade sobre quem a empresa serve e quanto vale. Guardião das premissas, não operário das entregas.

Pule essa etapa e o resto não salva. Porque a máquina de receita amplifica o que você alimenta nela. ICP errado somado a uma operação afiada é adquirir, com eficiência cirúrgica, exatamente o cliente que vai dar churn, regatear preço e diluir a marca. CAC gasto no cliente errado é a linha mais cara do balanço — e a mais silenciosa.

O mercado deu um nome novo à máquina: RevOps. Aqui vai a parte que quase ninguém diz com honestidade — RevOps não é marketing reinventado, é marketing finalmente montado como sistema em vez de pregado como filosofia. Comunicação, comercial e dados deixam de ser vizinhos que se cumprimentam no corredor e viram o mesmo aparelho: do primeiro anúncio ao último upsell, uma só responsabilidade sobre a receita, cada etapa devolvendo o dado que recalibra a anterior. Mas RevOps roda sobre a coerência estabelecida. Sem o guardião que respondeu quem é o cliente certo, o RevOps não corrige o desalinhamento — ele o escala.

E é aqui que o discurso importado engana. RevOps nasceu no SaaS americano para resolver silos: três áreas grandes, bem montadas, que não conversavam. A empresa brasileira de R$15 a R$50 milhões, no interior, raramente tem esse problema. Tem um anterior, e mais grave — nunca estabeleceu a coerência nem montou o aparelho. Marketing entra como custo, o comercial opera por faro, o dado vira relatório que ninguém lê. Não há silo a derrubar. Há fundação a lançar e máquina a construir.

É esse o trabalho que faço. Primeiro responder, com rigor, quem é o cliente certo e onde a empresa está incoerente com ele. Depois montar o sistema — marketing, comercial e dados como uma coisa só — que transforma essa coerência em faturamento crescente. Não vendo campanha nem palestra de número. Lanço a fundação e monto o aparelho que faltava.

Se o seu faturamento parou de crescer e ninguém na empresa sabe dizer exatamente onde, comece pela pergunta que provavelmente ninguém fez direito: estamos atrás do cliente certo — e tudo que dizemos a ele é coerente?


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